quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O Infeliz legado dos rótulos

O infeliz legado dos rótulos


Frequentemente, nos seminários teológicos, professores e alunos recorrem aos rótulos para sistematizar pensamentos e categorizar pensadores. De certa forma, não temos como evitar os rótulos. Qualquer epistemologia ou cosmovisão organizará suas ideias por meio de rótulos convenientes. Até certo ponto, e com certas qualificações, além de legítimo, torna-se necessário categorizar com palavras chaves, “reformados”, “católicos”, “liberalismo”, “ortodoxia”, “fundamentalista” etc. Porém, aquilo que é conveniente como preceito organizador passa a ser inconveniente quando o uso de um dado termo configura-se como abuso. 

É muito fácil, por exemplo, rotular aqueles que têm uma visão teológica que difere da nossa, como espécie de atalho para desqualificar toda e qualquer colocação do outro. Assim, não demora para um termo técnico perder qualquer definição ou sentido científico, assumindo, ao invés, a natureza de uma caricatura. Neste sentido, há pelos menos três perigos inerentes com a prática de rotular, todos os três interligados: (1) rotular leva ao anti-intelectualismo; (2) rotular leva ao desconhecimento; (3) rotular leva à descaracterização das pessoas.


1. Rotular leva ao anti-intelectualismo
Chega ao meu conhecimento o fato de que determinada turma de seminaristas faz fortes objeções ao professor que pretende apresentar a teologia de Rudolf Bultmann em sala de aula. Para a turma conservadora, já que Bultmann era liberal, não seria interessante nem necessário tomar conhecimento daquilo que ele pensava. Ora, se o professor fosse neo-Bultmanniano, se a turma tivesse medo de que – como um leviatã por debaixo das águas – brotasse alguma agenda anti-evangelical oculta, a queixa teria sido pelo menos compreensível. Mas, não foi bem assim. Acontece que o professor era tão conservador quanto aos alunos, havia sido criticado até por turmas anteriores em razão de seu conservadorismo! 

Evidentemente, declarar que fulano de tal é “liberal”, ou então “fundamentalista”, pode operar como conveniente pretexto para evitar leituras consideradas como “pesadas” ou pouco agradáveis. Este tipo de atitude, porém, barateia o estudo teológico e fomenta o isolacionismo e divisionismo no meio evangélico. Além do mais, rotular para não engajar é um comportamento que deixa a igreja vulnerável diante dos “ventos de doutrinas”. É só conhecendo seu oponente ideológico que é possível refutá-lo com autoridade e convencê-lo em amor cristão. Independente da linha teológica, optar por rotular o pensador e recusar-se a ler suas obras é uma demonstração de preguiça intelectual.
      
2. Rotular leva ao desconhecimento
No idioma do povão é conhecido que “toda geralização é burrice”, e no que se refere à prática acrítica de rotular, a sabedoria popular procede. Voltando, por conveniência, ao exemplo anterior, rotular Bultmann de “liberal” e resolver não engajar com ele é cometer um equívoco duplo. Em primeiro lugar, chamar Bultmann de liberal sem conhecer suas obras é um tanto quanto irônico, uma vez que o próprio Bultmann entendeu que enfrentava e corrigia o pensamento liberal, sendo categorizado na teologia sistemática como neo-ortodoxo! Ora, quem lê Bultmann pode identificar traços liberais em algumas das suas concepções e tem como falar com autoridade sobre o assunto. Quem lê Bultmann pode averiguar de maneira inteligente se suas tentativas de superar o liberalismo clássico tiveram êxito ou não. Mas, e quem não lê Bultmann? 

O segundo erro está relacionado àquilo que é perdido quando alguém ou algo é simplesmente desqualificado por meio de um rótulo sem maiores ponderações. Considere as seguintes pérolas teológicas: “Na pessoa de Jesus, está claro que a realidade divina transcendente tornou-se audível, visível e tangível na esfera do mundo terrestre”. Novamente, “Para a glória de Deus, Cristo cumpriu sua obra (Rm 15.7) e a Ele, entregará seu reino “a fim de que Deus seja tudo em todos” (1Co 15.28). E quem foi o autor destes edificantes e ortodoxos pronunciamentos? Sim, Rudolf Bultmann (1952b: 33; 1952: 352). 

No Brasil e afora, alguns professores de teologia têm uma agenda anti-evangélica e certo prazer doentio em ver alunos cristãos entrar em crises de fé. Para esses propósitos aspectos da linha Bultmanniana podem servir para “assustar” o verde seminarista. Para o aluno que passa por esse tipo de provação, é tentador esconder-se atrás de sua pilha de livros de Don Carson, John Piper e John Stott. Porém, refugiar-se assim é esquecer do fato de que Carson, Piper, Stott, e outros semelhantes são profundos conhecedores de Bultmann e tantos outros chamados liberais. Em vez de recuar, o seminarista pode tomar uma postura mais corajosa tendo em vista 2Tm 1.7, preparando-se para orar e examinar as colocações de Bultmann (ou seja quem for) com mente aberta, adotando para si como slogan a sabedoria do apóstolo Paulo conforme 1Ts 5.21. Haverá, certamente, discordâncias e frustrações na leitura daqueles que têm um ponto de vista que choca com o nosso, mas, pode ser que em meio à poeira saia alguma pérola. 

3. Rotular levar à descaracterização das pessoas
Por trás das palavras existem pessoas, por trás das ideias existem indivíduos. O problema mais grave dos rótulos é a sua tendência inerente de descaracterizar as pessoas. “Aquele cara é um liberal”, comenta o seminarista, veja como tal pronunciamento soa como denúncia pessoal. “Ele é um fundamentalista” afirma o professor em tom condenatório e superior. Vale lembrar que Jesus conversava com os “fundamentalistas” (os saduceus), debateu com os “legalistas” (os fariseus), tinha entre seus seguidores os “radicais” (Judas), e foi, de certa forma, taxado de “liberal” (Lc 7.34). Porém, Jesus sabia separar as coisas: as palavras são palavras, as pessoas são pessoas, as ideias são ideias, os indivíduos são indivíduos. 

Na verdade, a prática de rotular impensada e indiscriminadamente cria mais confusão do que clareza no que se refere ao indivíduo responsável pelas ideias. Inquestionavelmente, entre os maiores especialistas neotestamentários da atualidade está o anglicano N. T. Wright (por sinal, leitor profundo de Bultmann, e opositor contundente de muitas ideias do mesmo). Veja, porém, como os rótulos são capazes de confundir as coisas – no Reino Unido, Wright é rotulado como “conservador” pelos liberais, já nos Estados Unidos, é rotulado como “liberal” pelos conservadores! Para complicar mais ainda, é provável que o “conservador” norte-americano se autodenomina de “cristão evangelical”, enquanto os “cristãos evangelicais” do Reino Unido chamariam a mesma pessoa de “fundamentalista”! No Brasil, dependendo da região em que você estiver e a identidade eclesiástica da pessoa com quem você fala, a palavra “crente” pode ter uma conotação inteiramente positiva ou completamente negativa, dá para entender?!

Evidentemente, tudo descambia para o terreno da subjetividade e o relativismo. O que é “liberal” para mim, você poderia entender como essencialmente “ortodoxo”, especialmente sob o ângulo ecumênico. Igualmente, fica a dúvida, “liberal em que sentido?”, ou então, “ortodoxo a nível teórico, mas na prática...”. “Ah,”alguém poderia dizer, “mas, é para isso que temos as confissões de fé!” Esta lógica vale até certo ponto e da minha parte, creio que nos interesses do Reino de Deus temos de batalhar pela sã doutrina da fé apostólica que herdamos. Porém, nós mesmos complicamos o assunto, uma vez que as próprias denominações não conseguem concordar quanto àquilo que é “essencial”, exigindo conformidade em assuntos secundários e não essenciais (adiáfora), rotulando quem não quer adotar suas práticas e costumes. Jesus nos ensina a amar aos inimigos. Na contramão, odiamos os irmãos que não encaixam no nosso esquema.
  
Por fim
Para os teólogos e estudantes, os rótulos servem como ferramentas quando empregadas cautelosamente, com as devidas qualificações e esclarecimentos. Via de regra, qualquer pessoa que for tentada a falar de algum teólogo sem ter lido suas obras ou ouvido suas palestras deve censurar-se a si mesma. Confiar em informações obtidas em segunda mão é arriscado. Leia primeiro, fale depois, e lembra-se de que palavras não devem ser confundidas com pessoas. 

P.S. Devido aos exemplos citados acima, creio que cabe um aparte e um rotuluzinho, a saber, não souBultmanniano! 

Referências bibliográficas
BULTMANN, Rudolf, Theology of the New Testament. (2 Volumes) Londres: SCM, 1952.

Fonte: http://www.teologiabrasileira.com.br/

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